segunda-feira, 31 de março de 2014

Davi Baptistella

Quem não se lembra do S. Davi? Homem forte, chamava atenção por seu porte, sua voz, seus passos.
Na época em que começou a trabalhar no Esperança de Oliveira, era um servente, mas suas atribuições correspondem hoje às de um Inspetor Escolar.
Cuidava com muito carinho dos meninos. Lembro-me dele circulando por todo o espaço do Esperança de Oliveira, dentro e fora do prédio.
Hora de abastecer os tinteiros. Lá vinha o seu Davi, pedia licença, entrava na sala de aula e ia, de carteira em carteira, abastecendo os mesmos. Servia a todos com muita presteza.
Hora do recreio. Seus braços vigorosos batiam repetidas vezes o sino. Seu som se espalhava por toda a escola e arredores. Tenho saudades do sino do Esperança de Oliveira.
“Não encontrou o S. Davi?” Procure-o no porão. Com certeza estará lá. O porão, porém, era o lugar mais amedrontador da escola. Corriam conversas assustadoras sobre um esqueleto que havia lá. Ninguém olhava nem pelas janelinhas de ventilação. Nem a Diretoria para onde os alunos tinham medo de ir, caso fizessem alguma malandragem, era tão temida.
Conversando com o S. Tonico Placa, pai do meu genro, construtor de renome em Lençóis, ouvi uma história interessante do seu tempo de criança. Frequentou o Esperança de Oliveira de 1939 a 1944, quando se diplomou. Repetiu um ano porque ficou muito doente. Morava no sítio, próximo ao Rio da Prata, mais ou menos onde é hoje o Village.
Seu Tonico vinha à pé e descalço. Quando chegava à escola, já havia caminhado um longo trecho. Era só mato. Quando chovia, chegava de barro até o joelho. Como entrar na escola daquele jeito? Era, então, que surgia a figura do S. Davi. De mangueira na mão, lavava os pés das crianças antes de entrar na sala de aula, porque se o barro secasse, iria esfarelar e sujar todo o assoalho. Imaginem depois, a dificuldade para limpar.
Que bom se pudéssemos incutir, hoje, em nossos alunos, o amor, o respeito, o carinho devido às nossas escolas e à sua História.
Ao S. Davi nossa homenagem no ano em que sua escola comemora 100 anos.

domingo, 30 de março de 2014

30 de Março de 2.014- DOMINGO

Enquanto escrevo esta página, os sinos do Santuário Nossa Senhora da Piedade batem vigorosamente, chamando os paroquianos para a missa das nove horas, a missa das crianças.
Voltando ao meu tempo de criança, lembrei que era da mesma forma que ele chamava.
Domingo, Dia do Senhor, dia de colocar a melhor roupa e participar da Santa Missa. Roupa nova era para ser estreada na Igreja, para ir à Santa Missa. Primeiro Deus, depois vinham as outras coisas.
Com sete anos fiz a primeira comunhão. Recebi a Primeira Eucaristia no prédio da Ferragens São Carlos, onde nossa Igreja estava funcionando, provisoriamente. Por que isto aconteceu? Porque o Santuário, tal como o conhecemos hoje, estava em construção. Lembro-me de detalhes da obra, até do pedreiro que despencou lá do alto e morreu. Porém, fiquei encantada com o que descobri ontem, conversando com o S. Tonico Placa, pai do meu genro José Benedito. Ele me disse que a nossa Igreja foi projetada com o formato de uma grande cruz. Na ponta de cima da cruz, o altar central, onde aconteceriam as grandes celebrações, nos braços da cruz, os altares dedicados a S. José e ao Sagrado Coração de Jesus. Seguindo o traçado da cruz, em direção à sua parte inferior, o local destinado à assembleia. Bem na base da cruz, seria erguida a torre que acomodaria o coral, os sinos, o relógio, etc.
A primeira Igreja não caiu de imediato. A construção começou atrás dela. Quando grande parte da Igreja nova ficou pronta, chegando muito próximo da velha, esta foi demolida. Foi por esse motivo que recebi a Primeira Comunhão no prédio ocupado pela Ferragens São Carlos até  há pouco tempo.
Como era tradição na época, guardávamos jejum absoluto antes de receber Jesus na Eucaristia. Após a missa, uma grande festa nos esperava. Tinha bolo, doces, refrigerantes, etc.
Segundo S. Tonico, nossa Igreja ia ficar maior ainda, mas por motivos que fogem ao nosso conhecimento, ela ficou do tamanho que a conhecemos.
Com o passar dos anos, nossa Igreja sofreu alterações significativas, mas até hoje é muito bem cuidada e é um dos pontos turísticos de Lençóis Paulista. Recebi minha primeira comunhão no dia 17 de outubro de 1.952, pelas mãos do Pe. Ademar Serafim. Guardo com muito carinho a Lembrança da Primeira Comunhão.     
   

sábado, 29 de março de 2014

O Ipê Amarelo (Homenagem à Professora Vera Braga Franco Giacomini)

Quem não se lembra do ipê amarelo do Esperança de Oliveira? Ficava no pátio que dá para a rua Dr. Antonio Tedesco, próximo à esquina. Seus galhos se derramavam sobre o muro, alcançando a calçada da rua. Na época da florada, era uma festa para os olhos.
Todas as pessoas que subiam e desciam pela rua Dr. Antonio Tedesco contemplavam, embevecidas, a sua florada.
Mas o que aconteceu com o majestoso ipê amarelo? Hoje ele não existe mais. A necessidade de uma quadra de esportes para a prática de Educação Física o colocou no chão. A cidade inteira sentiu, mas uma pessoa, de modo especial, ficou na minha lembrança como a mais ferrenha defensora do ipê amarelo, Vera Braga Franco Giacomini, uma das melhores professoras de português que Lençóis já teve.
D. Vera veio muito jovem para Lençóis. Casou-se com o Sr. Gerson Giacomini, irmão das também professoras Juraci e Marisa. Seus filhos nasceram em Lençóis. Morava também muito próximo do Esperança, mas lecionou a vida toda no Virgílio Capoani.
Saudades da D. Vera e que privilégio ter sido sua aluna. Suas aulas nos marcavam profundamente. Partindo de um texto, ela englobava todas as noções que queria nos transmitir. Quando falava do autor, era como entrar no túnel do tempo. Passávamos a viver de acordo com a época do escritor. Sua didática era completamente diferente dos demais professores. Era muito abrangente. Quando terminava a aula, o quadro estava completamente tomado. D. Vera riscava, escrevia, parecia que queria representar tudo que nos transmitia. Os grandes escritores desfilavam aos nossos olhos com a maior competência da mestra. Da literatura nacional à literatura mundial. Olavo Bilac, Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Machado de Assis, Rui Barbosa, Castro Alves, Camões e tantos outros preenchiam suas aulas. Tive a sorte de tê-la como professora nos quatro anos de ginásio.
Temos em Lençóis o bairro da Cecap, cujas ruas recebem o nome de escritores famosos e, é lá, que D. Vera foi homenageada, dando nome a uma escola.
O Professor Célio Pinheiro deu continuidade ao trabalho de D. Vera, no Curso Normal, já direcionado para Literatura Infantil, público alvo da nossa formação.      

sexta-feira, 28 de março de 2014

O acesso às salas de aula

O básico em uma planta de Grupo Escolar, na época, eram as salas de aula, a diretoria e a sala dos professores.
No Esperança, tínhamos oito salas de aula. No centro, quatro salas e, em cada lateral, duas. Eram ligadas por corredores.
Em uma lateral, além das duas salas, a diretoria. Na outra, a sala dos professores. Tudo era funcional, ou estratégico. O olhar do diretor tinha que dominar tudo.
Duas escadarias davam acesso ao prédio. Pela da direita entravam os professores. Pela da esquerda, o diretor.
Em cada extremidade do corredor central havia uma pia, com sabonete e toalha de mão, onde os professores faziam a higiene das mãos quando saíam da sala de aula.
Sobre a pia do corredor onde ficava a diretoria, havia um crucifixo, presença obrigatória em todos os estabelecimentos públicos. No lado oposto, sobre a pia estava a figura, ou melhor, retrato do Esperança de Oliveira, professor que deu nome à escola. Lembro-me vagamente de sua biografia. Não me atrevo a escrever sobre ele, mas prometo pesquisar e contar um pouco de sua vida.
Outro detalhe que ficou em minha lembrança era um mapa do Brasil em madeira, com fotografias do Diretor da época, Corpo Docente e uma Turma de Formandos. Com as  sucessivas reformas que o Esperança de Oliveira sofreu e com o passar dos anos, ele sofreu as consequências. Hoje ele ainda permanece na parede. Para mim, uma preciosa relíquia. Também foi restaurado um dos relógios que fazia parte do mobiliário de toda sala de aula. Encontra-se na Diretoria. No pátio, até há pouco tempo, chumbada no chão, algumas carteiras antigas: estrutura de ferro e também de madeira. Havia duplas e depois individuais.
O assoalho da escola inteira era de madeira. Hoje foi substituído pelo piso frio.
As enormes janelas das salas de aula, com duas folhas que abriam e deixavam tudo claro, arejado, foram substituídas por vitrôs.
Nas férias, a escola permanecia aberta. Era feita a faxina geral. Nós, alunos que morávamos nos arredores, podíamos entrar e sair à vontade, até brincar na lousa.
Os Grupos Escolares construídos na época seguiam um padrão. É possível encontrar nos municípios mais antigos, a mesma disposição de salas, diretoria, sala dos professores, etc. era o que havia dentro das escolas.
As demais dependências foram surgindo acompanhando as exigências de cada época

quinta-feira, 27 de março de 2014

Tarefas, tarefas, tarefas...

Fui alfabetizada pela Cartilha Sodré. Depois dela, havia a coleção de livros Seleta Escolar, um para cada ano do curso primário.
Seleta Escolar, uma seleção de histórias (fábulas, contos, etc) e poesias. Tudo da mais fina literatura. Foi através dos livros desta coleção que entramos em contato com a poesia de Olavo Bilac, Casemiro de Abreu e outros.
Quem não se lembra da fábula de Esopo: “A raposa e as uvas”? Se não me falha a memória, era a primeira lição do Seleta Escolar do segundo ano. Lembro-me tão bem da lição de moral que vinha no final: “As uvas estão verdes”.
Assim íamos aprendendo e fixando os conceitos morais.
Estudar os sinônimos, trocar na leitura corrente as palavras assinaladas pelos seus sinônimos, interpretar, copiar um trecho da leitura, eram os exercícios que fazíamos.
Uma professora de tornou famosa no Esperança de Oliveira por sua braveza, pela quantidade de tarefa que passava e, principalmente, porque foi excelente professora. Trata-se de D. Antonieta Grassi Malatrasi. Morava a uma quadra e meia do Esperança. Era casada com um dos enfermeiros mais populares de Lençóis, conhecido de todos, Sr. Winter. Teve duas filhas: Glória e Miriam. De todas as professoras de que me lembro, D. Antonieta era a mais rigorosa, a mais temida.
Tínhamos férias de trinta dias em julho. Para cada dia de férias, havia uma lição do livro Seleta Escolar para copiar. Eu me lembro de ter passado um apuro danado por ter deixado de fazer uma cópia por dia. Os dias de férias foram acabando, a tarefa estava acumulada e o castigo seria grande se não desse conta do meu dever. Foi difícil, mas não voltei para a escola sem cumprir a minha obrigação.
Dona Antonieta Grassi Malatrasi dá nome hoje a uma escola situada na Vila Mamedina. Justa homenagem a quem honrou e ajudou a formar gerações  e gerações de lençoenses!

quarta-feira, 26 de março de 2014

O armário do professor

No fundo da sala ficava o imponente armário do professor. Era muito alto, de madeira, com portas de vidro. Metade era do professor que dava aula de manhã e metade era do professor da tarde. Ali ficavam nossos cadernos e o material do professor.
Hoje me lembrei da forma como o professor distribuía e recolhia nossos cadernos, pois eles não eram levados diariamente para casa, somente ia ao final da aula, o caderno de tarefa. 
A professora ia até o fundo da sala e trazia para a sua mesa, por exemplo, os cadernos de caligrafia. Eles eram guardados em montinhos. Cada montinho era de uma fileira de alunos. Colocava cada montinho na sua fileira correspondente. O aluno que estava à frente tirava o seu, passava o restante para trás e, assim, sucessivamente, até o último aluno da fileira.
Na hora de recolher, os alunos passavam no sentido contrário, vinham de trás para frente, cada aluno ia acrescentando o seu.
Quando a professora recolhia os montinhos de cadernos de cada fileira, fazia uma pilha grande, porém, desencontrando os montinhos para facilitar a distribuição. Era divertido, mas um trabalho que ajudava o professor.
Citei o caderno de “caligrafia” porque tínhamos, obrigatoriamente, duas aulas por semana. A professora riscava na lousa, com sua régua grande de madeira, a pauta. Nela, fazíamos os exercícios. Lembro-me muito bem das aulas de caligrafia. O traçado das letras maiúsculas, minúsculas, o escrever as palavras sem tirar o lápis do lugar, acentuar e pingar somente depois de escrever a palavra inteira, etc. Eram regras que seguíamos rigorosamente. Naquela época, cada aula levava uma nota. O professor saía carregado de cadernos para corrigir em casa. As notas iam de 0 a 100. Usava-se a caneta vermelha para assinalar os erros e destacar tudo o que o professor queria. 

terça-feira, 25 de março de 2014

Amarelinho... como ouro

Estava no terceiro ano do curso primário. Nossa professora era a Dona Maria da Conceição Viegas Garbino, esposa do Diretor Elzo Terra Garbino. Excelente professora. No meu coração, na minha memória, ocupa um lugar muito especial. Lembro que em Geografia estudávamos o Estado de São Paulo, ficando o estudo do Brasil, para o quarto ano. Tínhamos um caderno de cartografia. Nele desenhávamos o mapa, coloríamos e colocávamos o que estávamos estudando: relevo, hidrografia, limites, enfim, tudo que nos era ensinado.
Lembro-me dos colegas do terceiro ano, mas me lembro de um de modo especial: o José Henrique. Não era daqui, mas morou com uma tia na rua Geraldo Pereira de Barros. Era loiro, não lembro se tinha olhos azuis, mas era um menino muito bonito, inteligente, aplicado. O que ele sabia fazer como ninguém, era pintar os mapas, preenchendo o seu interior com uma uniformidade, que por mais que eu tentasse fazer igual, não conseguia.
Os mapas do Estado de São Paulo pintados por ele ficavam amarelinhos, amarelinhos, brilhavam como ouro!
Por onde andará o José Henrique?
Lembro-me da técnica que usávamos quando não tínhamos o dom de colorir deslizando o lápis de cor. Usávamos a gilete e, com muito cuidado, fazíamos um pozinho sobre o papel, como se estivéssemos afinando a ponta do lápis. Depois, com um algodãozinho, esfregávamos aquele pozinho sobre toda a superfície a colorir. Azul para o oceano, verde para as matas e assim íamos dando cores aos desenhos.
Dona Maria teve quatro filhos: Leda, José Antonio, Lia e Elzinho. Quando o casal veio para Lençóis, morou em uma casa alugada na rua 9 de julho, próximo à padaria do Mário. Com o tempo, construíram na rua Virgílio Rocha, bem próximo à minha casa e do Esperança de Oliveira. Tanto para ir trabalhar no Esperança como professora,  como no Paulo Zillo já como diretora, passavam obrigatoriamente pela porta de minha casa. Vi seus filhos crescerem. Fui professora da Lia e depois do Elzinho. Para a Lia, dei aula o ano todo. Para o Elzinho, apenas iniciei o ano, pois fiquei comissionada para fazer o Curso de Formação de Administradores Escolares.
Tenho contato com família da Dona Maria até hoje, através do Elzinho, que reside em um sítio em Lençóis.