sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A MENININHA MARIA CONCEIÇÃO E RUI BARBOSA

Vejam o questionário que a menininha Maria Conceição teve que responder com apenas sete ou oito anos de idade, quando cursava o terceiro ano do primário.
Questões:
1º Que nome tem a mais antiga e bela praça de Bauru?
2º Quem foi Rui Barbosa?
3º Onde fez o seu curso primário e em que academias estudou e se formou?
4º Quem imaginou primeiro a Lei do Ventre Livre e a Lei Saraiva?
5º Que fez ele a favor da República e que cargo ele ocupou após a Proclamação?
6º Rui Barbosa foi contra o governo e a favor de quem?
7º Que lhe aconteceu quando houve a Revolta da Armada, em 1893?
8º Até quando ele foi Senador da República?
9º Que aconteceu em 1907, que cognome Rui Barbosa recebeu?
10º Que foi ele fazer na cidade de Tucuman, na Argentina?
11º Quantas vezes foi candidato à Presidência da República e contra quem fez a célebre Campanha Civilista?
Fico me perguntando como a professora conseguia dar tantas informações aos seus alunos. Raramente encontro nos cadernos de treino, pistas que me levem a descobrir que material de apoio tinham as crianças naquela época, para trazer todas as respostas solicitadas na tarefa. Acredito que a maior colaboradora deveria ser a mãe. Se a D. Maria estivesse viva, bateríamos longos papos sobre a sua vida de estudante e a didática de seus professores. A única coisa que sei, é que ela era muito culta e sábia, fruto da educação que recebeu. Amava os livros e sempre surpreendia nos presenteando com um.
Logo após o questionário, vem a orientação das tarefas:
- História da Praça Rui Barbosa
- Jogo de Geografia completo para a Rua 15, de novo
- Diários bem comentados
- Treino de Ortografia, de 1 a 25
- Um problema: Quanto custarão----------Kg de carne, se ------------Kg custam---------------
Muito complexo para uma terceira série, pois a criança tinha que saber operar com números decimais, primeiro calculando o preço de um quilo e depois da quantidade pedida.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A MENININHA MARIA CONCEIÇÃO E A CARTOGRAFIA

Sempre gostei de trabalhar com as quartas séries, alunos numa fase de transição, nem tão crianças, nem tão pouco adolescentes. Tinha um jeito especial para lidar com eles. Fazia tudo direcionado para a série seguinte, queria que eles chegassem muito bem preparados, talvez, para evitar o mesmo trauma que sofri ao entrar no ginásio, a inesquecível reprovação em massa. Tinha um excelente relacionamento com os professores da quinta série. Conhecia o conteúdo que seria desenvolvido no ano seguinte. Gostava de desafiar meus alunos com questões das séries seguintes. Quando acertavam, ficavam felizes da vida. Muitas vezes, promovia uma disputa de conhecimentos entre meninos e meninas. Ambos elaboravam questões para saber quem sabia mais: meninos ou meninas. A disputa era acirrada. Confesso que, muitas vezes, cheguei a assustá-los com tantas exigências. Fazia questão de cadernos impecáveis. Tinha o hábito de exigir deles a separação de um exercício do outro, com traço vermelho. Para isso era indispensável a régua e o lápis vermelho grosso. Os parágrafos, também, tinham que ser todos exatamente do mesmo tamanho. Alguns professores tinham o hábito de deixar dois dedinhos. Eu, porém, fazia riscar os parágrafos, a lápis, no caderno inteiro, da largura de uma régua de madeira. O efeito era lindo. Quando acabavam de copiar um texto, o alinhamento era perfeito. O traçado era imperceptível. Não preciso dizer que, quando os cadernos dos alunos eram vistados pela D. Maria, voltavam cheios de elogios.
Um dos cadernos que ela gostava muito de ver, chegando até a entrar na sala de aula para observar os alunos trabalhando, era o caderno de cartografia. Hoje, pegando os Cadernos de Treino da menininha Maria, entendo porque tamanho interesse. Ela, com certeza, lembrava o quanto aprendeu com sua professora, desenhando à mão livre, o Estado de São Paulo, o Brasil, a América do Sul, a Europa! Pasmem, tudo à mão livre.


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A MENININHA MARIA CONCEIÇÃO E A POESIA

Leiam a linda poesia que encontrei no Caderno de Treino, do 3º ano A, da aluna Maria Conceição Viegas.

PRINCESA D. ISABEL

Princesa D. Isabel
Mamãe disse que a Senhora
Perdeu o seu lindo trono
Mas tem um mais lindo agora

No céu está esse trono
Que agora a Senhora tem
Além de ser mais bonito
Ninguém o tira, ninguém

Aí no céu quando chegam
Anjinhos aos bandos mil
Depressa a senhora abraça
Os que chegam do Brasil
  
Vejam a singeleza e a ternura com que eram tratadas as figuras da História do Brasil. Garanto que estas três estrofes imprimiram um amor tão grande à Princesa Isabel, que nem o melhor texto seria capaz de tal façanha.
Apesar de ser apenas um Caderno de Treino, surpreendo-me com tantas coisas, que sem querer, me vejo comparando a menininha Maria, com a mestra Maria. Havia, realmente, algo de extraordinário no seu jeito adulto de ser, que só pode realmente ter sido forjado pelas mãos hábeis de excelentes mestres, como deve ter sido D. Iracema Amarante. D. Maria gostava muito de cantar. O canto nada mais é que uma poesia musicada, mas para cair no gosto dela, tinha que ser muito boa. Por isso, quando D. Maria cantava, se entregava de corpo e alma, e as crianças também.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

A MENININHA MARIA CONCEIÇÃO E O CADERNO DE TREINO

Confesso que fiquei emocionada ao analisar o Caderno de Treino da menininha Maria Conceição Viegas. Tão pequenina e tão sobrecarregada de deveres escolares. Tive a ideia de me colocar em seu lugar e fazer uma das tarefas que um dia ela fez. É claro que não teria dificuldade, mas demonstraria o quanto se exigia de uma criança de apenas sete ou oito anos.
Fevereiro de 1938
- Treino de ortografia, de 41 a 60
- Algarismos romanos, de CCCXLI à CCCLXXX (341 a 380)
-  Contas: 94 381 : 9 e por 38
- Lista individual
- Leitura do número 498 372 524 (Leitura e Decomposição)
Vou iniciar a tarefa. Quero fazer exatamente como ela fez, copiando os acertos e erros.
41 - em-bo-ra
42 - en-gra-ça-di-nha
43 - e-xa-me
44 - en-ve-lo-pe
45 - em-bar-car
46 - en-can-to
47 - fos-se
48 - xxxxxxxxxxx
49 - fi-as-co
50-Gui-lher-me
51 - gros-se-ri-as
52 - hei
53 - Hu-go
54 - hon-ra-da
55 - ho-nes-ta
56 - hor-ror
57 - ho-je
58 - in-co-mo-da-da
59 - i-ma-gi-nar
60 - ir-ra-di-a-ção
CCCXLI
CCCXLII
CCCXIII
CCCXLIV
CCCXLV
CCCXLVI
CCCXLVII
CCCXLVIII
CCCXLIX
CCCL
CCCLI
CCCLII
CCCLIII
CCCLIV
CCCLV
CCCLVI
CCCLVII
CCCLVIII
CCCLIX
CCCLX
498 372 524: Este número é quatrocentos e noventa e oito milhões, trezentos e setenta e dois mil, quinhentos e vinte e quatro unidades simples. Ele tem três classes, a das unidades, dezenas, centenas simples, a das unidades, dezenas, centenas de milhar, a das unidades, dezenas, centenas de milhão. O 4 vale quatro, o 2 vale vinte, o 5 vale quinhentos, o 2 vale dois mil, o 7 vale setenta mil, o 3 vale trezentos mil, o 8 vale oito milhões, o 9 vale noventa milhões, o 4 vale quatrocentos milhões.

Nota: Errou as duas contas da tarefa. Ao mudar de página para fazê-las, copiou o número errado. Outro detalhe: no treino de ortografia, as palavras eram copiadas e em seguida se fazia a separação das sílabas. Nesta tarefa foi omitida a cópia, só aparece o treino de separação das sílabas.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

MARIA CONCEIÇÃO VIEGAS - ADMIRAÇÃO ETERNA

Os anos passaram, e toda vez que tenho oportunidade de falar dela, eu me emociono, tamanha foi a influência que exerceu em minha vida. Primeiramente, como minha professora de terceiro ano do curso primário, depois, como minha primeira diretora. Já citei inúmeras vezes seu nome nas páginas publicadas. Quero agora, com o consentimento de seus familiares, dedicar algumas páginas exclusivamente a ela. Quero entrar no Túnel do Tempo, trazer a menininha encantadora que deve ter sido “D. Maria”. Tenho em minhas mãos, seus caderninhos de quando frequentou o grupo escolar, guardados com o maior carinho pela família. Agradeço à Nilce que me confiou este imenso tesouro. Quero ser digna de captar tudo aquilo que ali ficou registrado. Acredito que vamos nos deliciar conhecendo mais ainda fatos de sua vida. Lembrei-me do livro “Bisa Bia, Bisa Bel”, quando a netinha descobre a foto de sua bisavó criança e, a partir de então, é tomada por tanto carinho, que transforma sua “bisa” na sua melhor amiguinha, carregando-a sempre consigo, transformando-a em sua companheira de todas as horas, escondidinha, bem pertinho de seu coração.
1937 - 1938: É desse período os cadernos que tenho em mãos. São cadernos tipo brochura, sem pauta. Na capa tem impresso: 3º GRUPO ESCOLAR/CADERNO DE TREINO/3º ANO A/ ALUNA MARIA CONCEIÇÃO VIEGAS/PROFESSORA D. IRACEMA AMARANTE
No espaço reservado para o nome da aluna, com uma letra muito delicada, aparece o nome Maria Conceição Viegas, letra da própria criança. No meu tempo de criança, este caderno era chamado de “borrador”. Caderno de treino, nada mais era do que um caderno de tarefa. Para evitar desperdício, as páginas eram numeradas. Porém, o que mais chama atenção é a quantidade de tarefa e a ocupação de cada folha. O espaço era ocupado milimetricamente. Na mesma página, dividida em colunas, cabia, às vezes, a tarefa de matemática e de português. Mas a quantidade de tarefa era realmente espantosa. Acredito que se a criança passava quatro horas na escola, ela passava mais quatro em casa fazendo tarefa. Havia tarefas especiais para as férias, para o carnaval, para os feriados, etc.                    
Vejam esta tarefa passada para os dias de Carnaval: Treino Ortográfico (Uma lista com CEM palavras para serem copiadas e divididas em sílabas), Lista coletiva do mês de janeiro inteirinha, Algarismos Romanos de 391 até 420, mais duas contas. Os algarismos romanos eram escritos em sequência: 391-CCCXCI, 392-CCCXCII, 393-CCCXCIII, 394-CCCXCIV... É interessante observar que todo dia a tarefa seguia o mesmo esquema: Treino ortográfico, Algarismos romanos, duas contas. Mesmo dominando a escrita dos numerais romanos, em toda tarefa aparecia a exigência de se escrever uma sequencia. A escrita passava de mil, dois mil, etc. Era fixação que não acabava mais! Vou publicar uma série de páginas sobre a menininha MARIA CONCEIÇÃO VIEGAS. É a forma que encontrei de homenageá-la. Até a próxima.

sábado, 25 de outubro de 2014

CARRIT- A FAMÍLIA DE GRANDES EDUCADORAS

Antes de iniciar o curso primário, as crianças passavam pelo Jardim de Infância “Elisa de Barros”. Era ali que eram preparadas durante um ano pela D. Irma. Minha mãe bem que tentou fazer com que eu frequentasse o Jardim de Infância, mas não houve meio. Lembro que chorava muito, não queria saber. Éramos criados muito agarrados a ela, ficávamos muito envergonhados na presença de outras pessoas. Sendo assim, nem eu, nem meus irmãos fizemos o Jardim de Infância. Apesar de não ter tido este contato tão próximo com ela, não havia na cidade quem não a conhecesse. A família Carrit se destacava pela religiosidade. D. Irma Carrit e suas irmãs moravam muito próximas. Lembro que elas eram muito habilidosas. Na época de Finados, as portas de suas casas se enchiam de coroas com flores de papel crepom muito coloridas, que eram adquiridas pelas pessoas para enfeitar os túmulos. D. Irma era talhada para lidar com crianças. Não se casou. Adotava todas as crianças que iam parar em suas mãos. Era mestra e mãe. O catecismo era uma obrigação. A religião ocupava o centro de sua vida. Havia duas congregações religiosas na época: os Marianos e as Filhas de Maria, ambos seguidores de Maria. Vestiam-se de branco e traziam no pescoço uma fita azul celeste com a medalha de Nossa Senhora. A Congregação era formada por um grande número de pessoas. O grupo se destacava do restante dos fiéis pela devoção a Nossa Senhora.
Bernadete, Terezinha e Inês, três sobrinhas de D. Irma, três professoras que doaram as suas vidas ao magistério. Bernadete, como eu, conquistou também uma cadeira prêmio. Trabalhou praticamente toda sua vida no Grupo Escolar Esperança de Oliveira. Excelente Professora Particular de Matemática, sua casa vivia repleta de alunos em busca de ajuda. Bernadete é lembrada por todos. Hoje, formada em Direito, continua atuante, embora em outra área.
Terezinha foi colega de trabalho no Paulo Zillo. Sua casa foi construída bem em frente da escola. Quando dava o sinal, nós saíamos da sala dos professores e íamos para o pátio. Ela saía correndo de sua casa para a escola. Só atravessava a rua. Bons tempos. Terezinha é muito dinâmica. Apesar de todos os obstáculos que enfrentou ao longo de sua vida, é uma vencedora. A sua fé remove montanhas. Saudades da correria!
Inês também dedicou toda sua vida ao Magistério. Como suas irmãs, só conquistou elogios por onde passou. Trabalhou não só em Escola Pública, como também em Escola Particular. Não tive oportunidade de trabalhar ao seu lado, porém, sei de sua competência e do prestígio que alcançou.
Hoje, todas, com exceção, claro, de D. Irma, gozam da merecida aposentadoria e curtem com mais tranquilidade a família. 

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

AS SETE PROFESSORAS QUE DERAM VIDA À ESCOLA ESTADUAL DO PARQUE RESIDENCIAL SÃO JOSÉ - ATUAL “ANTONIETA GRASSI MALATRAZI”

Ângela Trecenti, Ângela Lorenzetti, Ozires Cordeiro, Maria Jandira Fortes e Zuleika Boso Radichi foram as professoras removidas compulsoriamente do Dr. Paulo Zillo para iniciar o trabalho na recém criada escola do Parque Residencial São José. Todas nós sentimos muito. Deixaríamos a escola de nossos sonhos, nossos colegas, nossa diretora, nossos alunos, para adotar nova casa, novo diretor, novos alunos. Na época, Lençóis era uma Delegacia de Ensino. Seu Sílvio Cunha era nosso Delegado. Isto aconteceu no início de 1977. A notícia pegou todo mundo de surpresa, até a diretora. Eu chorei muito, o Grupo Escolar Dr. Paulo Zillo, na minha cabeça, seria a minha escola até a aposentadoria. Mas não foi isso que aconteceu. Seu Sílvio, Delegado de Ensino, justificou dizendo que ia chegar um dia em que nenhum professor iria se sentir parte de uma só escola. O professor pertence a todas as escolas. Foi com esse discurso que ele nos “arrancou” do Paulo Zillo. O critério adotado foi o da classificação por tempo de serviço. Pegou as cinco últimas classificadas, portanto, as que tinham menos tempo de serviço. Fez a mesma coisa com as professoras do Esperança. Removeu duas: a Genny Bernardes e a Neide Franco. Estava formado, portanto, o novo Corpo Docente da mais nova escola de Lençóis. Um quinteto do Paulo Zillo e uma dupla do Esperança de Oliveira. De Areiópolis veio removido o Diretor Edo Jesus Coneglian. Ficamos algum tempo no prédio da Escola de Comércio. Assim que o novo prédio foi concluído, fomos para lá. Nossas vidas mudaram muito, tínhamos que atravessar a cidade para chegar lá. Ficamos tão traumatizadas com a remoção contra a nossa vontade, que não quisemos mais saber de voltar para o Paulo Zillo. A nova escola surgiu para acolher os alunos da Mamedina e do Parque Residencial São José, que atravessavam a cidade para estudar. Os primeiros anos foram maravilhosos, considerando-se a qualidade do ensino ali oferecido, sem falar da direção. O que foi mais difícil foi nos adaptar ao novo prédio. Infelizmente não lembrava em nada nosso inesquecível Paulo Zillo e Esperança de Oliveira.  As salas de aula tinham padrão normal, mas o resto das dependências eram minúsculas. O chão de cimento rústico ia esfarelando com o uso. Era insuportável a poeira que levantava quando os serventes varriam. Embora construída num terreno imenso, não tinha a infraestrutura adequada para ser a escola que também absorveria, mais tarde, os alunos do Jardim Primavera. A quadra para as aulas de Educação Física custou a ser feita. Não preciso dizer que aquilo que não foi gasto com a sua construção,  foi gasto com as sucessivas reformas pelas quais passou. Demorou muito tempo para que todo o espaço livre fosse ocupado adequadamente, principalmente, com árvores e gramado. Oferecendo também o ensino de quinta à oitava, o Corpo Docente cresceu. Levou muitos anos para esquecermos aquela remoção compulsória, porém, o prazer de alicerçar a nova escola, dando-lhe o necessário impulso para se projetar no cenário educacional, valeu a pena.